Se as respectivas namoradas quiserem os levar para o cinema, fujam do filme do Marley. Digam logo para elas que o cachorro morre no final ou terminem o namoro. Afinal de contas, mulher você arranja em qualquer lugar, mas ver um filme sobre um cachorro que sai correndo igual maluco sem motivo aparente é perder noventa minutos de sua vida, noventa minutos que não voltarão mais. E o filme é isso - o cachorro correndo, a mulher do cara parindo um filho atrás do outro, e o cachorro correndo. Aí, eles mudam de casa...óóóóóóóóhh...
E sabe o que é pior. É que o cachorro sai correndo, e as crianças e mulheres começam a rim. Aí ele sai correndo de novo, e elas riem de novo. Aí o cachorro morre e todo mundo chora. Filmaço, né?
Pior ainda é a moral da história, de que para ser feliz, não é preciso muita coisa, basta ser como o cachorro. Tá bom, queria ver os produtores do filme satisfeitos por roer osso e ter alguém para coçar a barriguinha deles...
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Por isso que eu digo - o brasileiro não sabe o que é bom. Por isso, um dos maiores filmes de todos os tempos foi fracasso de bilheteria e relegado ao esquecimento - Cinderela Bahiana, com Carla Perez. Nada é mais genial do que o filme da baianinha, dirigido por Conrado Sanchez, o mesmo de vários clássicos do cinema nacional como "Como Afogar o Ganso" (1981), "A Menina e o Estuprador" (1982) e "A Menina e o Cavalo" (1983).
O filme é lindo como um todo, uma história de impressionante originalidade, a menina que sai dos cafundós da Bahia para vencer na vida artística, tendo de superar a tudo e a todos, inclusive, um empresário italiano inescrupuloso.
No meio de tanta beleza, duas cenas, no entanto, fazem a diferença e mostram o talento cinematográfico brasileiro se sobressaindo:
1-) Na primeira, Lázaro Ramos salva o príncipe Alexandre Pires puxando a orelha dos maus feitores, algo único no cinema mundial.
2) A segunda é a cena final, quando Carlinha Perez, vestida com trajes de odalisca em baile em Carnaval, desce indignadíssima de seu carro importado, ao se deparar com crianças trabalhando em uma estrada esburacada. O porquê daquelas criancinhas estarem empunhando enxadas no meio do asfalto é irrelevante. Indignada, Carla faz um discurso que retrata o espírito brasileiro da época: "De que adiantam essas campanhas demagógicas!?" e joga a enxada longe, num momento altamente simbólico.
Do nada, aparece uma gaiola. Carla, então, liberta alguns passarinhos para o comovente vôo da liberdade (apesar de uma das crianças ter sido obrigada a sacudir a gaiola para que as aves saíssem voando, em uma metáfora cristalina da apatia e acomodação daqueles que sequer reconhecem-se oprimidos pela malévola sociedade capitalista). E aí vem o grande momento do filme: a apoteótica dança do tchan, a concretização do ser livre, alegre, brasileiro. Confiram:
Enfim, um clássico do cinema e muito melhor do que o filme do cachorro que sai correndo por noventa minutos e morre no fim.
















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